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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pão ou pães, é mesmo questão de opiniães?


Pegue o jornal ou o portal de informações do dia e marque todas as notícias assustadoras que encontrar. Depois, marque as boas, se encontrar. Compare a diferença.

Existe uma máxima do jornalismo que deve valer para sempre, "o que é notícia não é o fato de o cachorro morder o dono, mas o dono morder o cachorro", em outras palavras, a boa notícia para quem vende jornal ou chama a atenção para o anunciante está fundamentada no incomum, por isso, notícias boas não interessam.

Crianças e famílias satisfeitas pelo atendimento de uma escola pública é uma manchete que você nunca poderá ler em um meio de comunicação comercial, mas basta um problema pontual para que o mandatário seja colocado em dúvida, principalmente se a notícia vier acompanhada de suspeitas de corrupção e superfaturamento, dois temas que atraem o olhar dos que sofrem para manter o emprego e pagar suas contas, ou seja, a maioria.

Faça uma busca nas notícias anteriores à abertura das Olimpíadas do Rio, depois, veja a repercussão da aprovação internacional. Agora, me responda, em qual desses países nós vivemos?

Digo países, no plural, porque a realidade retratada é tão diferente uma da outra que fica difícil acreditar que o assunto é o mesmo. Antes, uma cidade que seria uma vergonha retumbante, depois, um orgulho nacional. Sabemos que não é uma coisa ou outra.

A manipulação da opinião pública e o jogo de interesses são fatos, jamais admitidos, mas fatos. Basta um pouco de inteligência e bom senso para percebê-los.

Isso não quer dizer que devemos imitar os avestruzes, que enterram as cabeças quando sentem medo. A informação é fundamental e dá subsídios para qualquer um se posicionar e avaliar o mundo em que vivemos, mas é preciso reflexão e fundamentação para construir a própria opinião, que irá abrir espaço para o diálogo, que nos torna humanos, sociáveis, capazes de apresentar diferentes pontos de vista.

Abandonar a inteligência para ceder à manipulação dos meios de comunicação, tomar partido e, ainda pior, repercutir opiniões polarizadas para atrair likes, significa fazer parte da boiada que segue para um único caminho: o abate.

Luciano Toriello
30/08/2016 - escrito com uma Olivetti Lexikon 80


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Instantes



Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a mais lugares aonde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida.

Claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; não percam o agora.

Eu era um daqueles que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um paraquedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.


Autoria discutível. Poema atribuído ora a Jorge Luis Borges, ora a Nadine Stair.


Escrito com uma Olivetti Lexikon 80

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O segredo dos seus olhos


As máquinas de escrever são uma espécie de componente obrigatório nos cenários de filmes que contam histórias sobre o século XX, não podia ser diferente, já que as máquinas eram essenciais na vida das pessoas.

Mas geralmente elas estão lá apenas como um adorno visual que retrata uma época, sem qualquer relevância no enredo, a não ser, é claro, que seja para atender a um roteiro raso de filme B, em que o assassino utilize uma máquina para deixar bilhetes no corpo das suas vítimas, daí, basta encontrar a máquina para descobrir o criminoso.



No belíssimo filme argentino "O segredo dos seus olhos", uma Lexikon 80 aparece, não como um elemento chave para o desenvolvimento da trama, mas com uma função bastante importante.

Quando assisti às primeiras cenas, fiquei irritado com a forma desastrosa com que a bela Olivetti estava sendo tratada, só porque apresentava um defeito com a impressão da letra "a".

 Depois, entendi que essa ausência do tipo era essencial para que o personagem pudesse revelar seus sentimentos, em mais um detalhe brilhante da história.



Recomendo fortemente que todos assistam ao filme, que está disponível em vários lugares, como o Netflix e, imagino, nas locadoras.

Mas, para ilustrar, preparei uma pequena edição com os recortes da Lexikon 80. Está no YouTube.



Luciano Toriello - 28.12.2015
Escrito com uma Lexikon 80, idêntica à do filme, em perfeitas condições, como aquela também deve estar, porque as Lexikon 80 são eternas.




sábado, 19 de dezembro de 2015

A melhor de todos os tempos


Em 1988, tive a oportunidade de trabalhar na Folha da Manhã, empresa que publica o jornal Folha de S. Paulo e, na época, também era responsável pela Folha da Tarde e pelo saudoso Notícias Populares.

A redação da Folha era a mais moderna, com terminais eletrônicos que acendiam as telas de fósforo verde, em que os jornalistas produziam as matérias e encaminhavam, após a edição, direto para o setor de fotocomposição, onde eu trabalhava. Lá, os artistas do paste-up montavam a página como seria impressa, colando textos e fotos, munidos de régua, estilete e canetas de nanquim.

Mas o lugar que mais me atraía era a redação do extinto A Gazeta Esportiva, que tinha o pessoal contratado pela Fundação Cásper Líbero, mas utilizava a mesma estrutura gráfica do Grupo Folha, na Alameda Barão de Limeira.

Os jornalistas da GE eram craques do texto, capazes de reproduzir a emoção de uma partida de futebol com suas máquinas de escrever, ainda que estivessem assistindo ao jogo por uma pequena TV de tubo, com uma imagem ruim.

Normalmente, o jornal de esportes fechava cedo, por volta das 22h30, mas eventualmente era preciso esperar o resultado de alguma partida importante para que a cidade pudesse ler no dia seguinte.

Tudo ficava pronto, esperando apenas o último texto, com espaço reservado. Daí, eu cumpria a ordem de fazer sombra ao jornalista responsável pela matéria.

 Após o apito final, ele concluía as anotações, virava o tampo da mesa para fazer surgir a sua Lexikon 80, que ficava presa pelos pés, e metralhava o teclado, em uma velocidade impressionante para os meus olhos.

Depois do último ponto, arrancava o papel da máquina e me entregava, sem a necessidade de revisar o resultado.

- Pode levar.

Era a senha para eu começar a minha corrida alucinante, para que o texto fosse digitado, revelado e entregue para ser colado na página e seguir pelo elevador para a produção do fotolito. Em poucos minutos, estava na rotativa.

Favorita dos bons jornalistas, a Olivetti fabricada nos anos 1950 dava seus últimos suspiros, sem ter sido substituída pelos modelos mais novos, porque era a melhor.

Não demorou até que os técnicos de informática desembalassem os equipamentos de edição eletrônica, que apareceram de um dia para o outro. Em seguida, todo o pessoal da fotocomposição fez fila para sacar o FGTS.

Prefiro não imaginar o final trágico daquelas Lexikon 80, mas estou certo que os antigos profissionais da imprensa guardam uma saudade da melhor máquina de escrever de todos os tempos.




Luciano Toriello - 19/12/2015
Escrito com uma Olivetti Lexikon 80

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Como cuidar bem de uma máquina de escrever - 3


3. Dê um branco no branquinho - pior que o erro é o desastre do branquinho.

Olhe a sua volta. Se tiver um frasco de branquinho por perto, jogue direto no lixo. Nem pense em presentear um colega com isso, afinal, todos nós sabemos que só podemos dar o nosso melhor para os outros, ou seja, tudo que gostaríamos de receber, então, porque empurrar um problema para alguém?

Distraída, a pessoa entra num turbilhão de erros. Primeiro, com o texto, depois, ao tirar o pincel do frasco, deixa derramar um pouco sobre a mesa e pinga todo o caminho até o papel, ou seja, na máquina de escrever, pintando todas as peças para sempre.

Como a lambuzeira no papel não seca bem, ao reescrever, aquilo gruda no tipo que, sem limpeza, acaba borrando todo o resto do trabalho.

Pior, na pressa de tirar a folha, passa pelo rolo, marcando também os roletes internos.

Para limpar a máquina, só mesmo com a ajuda de um profissional, o mecanógrafo, que está cada vez mais raro e caro.

Luciano Toriello - 01/10/2015
Escrito com uma Olivetti Lexikon 80

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Como cuidar bem de uma máquina de escrever - 2


2. Apague a borracha da sua vida - a melhor receita para um bom texto datilografado é bem fácil de aprender: - Não erre!
Se errar, não apague.
Retire a folha e comece de novo. Em pouco tempo, vai acertar na primeira tentativa.
Mesmo que se sinta um idiota ou chore de raiva, não deixe de ser cruel consigo mesmo. Se ajudar, imagine que está passando por uma avaliação que só aprova a perfeição.
Em pouco tempo, vai perceber que ficou mais eficiente nos seus textos, até mesmo nas demais atividades, porque aprendeu a pensar antes de agir. Uma habilidade que todos nós temos, mas que foi sendo esquecida com o tempo, principalmente depois que os computadores chegaram e nos apresentaram as teclas "Delete" e "Backspace".
Mas se a disciplina não é o seu forte, tudo bem, livre-se da culpa. Cubra o erro com um "x" e reescreva.
Até mesmo uma letra rebatida é melhor que o borrão produzido com a tentativa de apagar.
Sua máquina vai ficar eternamente agradecida pelo fim da borracha, porque os resíduos não desaparecem, como as pessoas costumam pensar.
Eles se misturam com a oleosidade das partes mecânicas e ajudam a formar uma massa gosmenta que limita os movimentos.

Luciano Toriello - 30/09/2015
Escrito com uma Olivetti Lexikon 80

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Não dá para restaurar



As coisas têm história e narram sua trajetória de acordo com as características que acumulam com o tempo.
O código se apresenta em pequenos sinais, como uma mancha, um arranhão ou um vício de funcionamento. É possível entender de forma clara como eram as pessoas que utilizaram o objeto, até decifrar uma personalidade que nem mesmo o autor pode ter se dado conta que tinha.
Quando encontro uma máquina de escrever e dedico minhas horas na sua limpeza e manutenção, estabeleço um diálogo com esse personagem-objeto e até sou capaz de enxergar o exato instante que a marca passou a existir.
Quer um exemplo? Uma das minhas máquinas, uma Royal Quiet Deluxe, tem a lateral esquerda com a pintura estufada, pronta para descascar em uma limpeza mais profunda. Ao mesmo tempo, essa máquina tem o teclado leve, daqueles que não enroscam com velocidade rápida. É certo que pertenceu a um escritor, que repousava o braço esquerdo em sua lateral, enquanto consultava um livro a sua direita ou parava para pensar no melhor registro da sua imaginação. Depois da pausa, metralhava suas ideias num único fôlego.
Outras máquinas tiveram um uso profissional, em salas acarpetadas, escrevendo cartas e memorandos. Arranhões nos botões do teclado apontam para os dedos femininos, com unhas compridas e bem pintadas, roçando sobre a tecla enquanto o olhar busca por uma palavra perdida no rascunho. Difícil dizer o que se passava por essa cabeça naquele instante. Talvez o desejo por um sapato novo, os planos de casamentou ou a conta atrasada esperando por um saldo positivo.
Por isso, ao invés de arriscar uma restauração que finge devolver o estado de novo ao objeto, mas que cria, de fato, um palimpsesto em que as marcas são raspadas para um novo registro, que não apaga o passado, prefiro simplesmente deixar o mesmo visual, limpo apenas de sujeira, para que a coisa continue o seu caminho até o agora em que também eu serei traduzido por minhas pegadas.


Luciano Toriello - 24/08/2015
Escrito em uma Olivetti Lexikon 80